Site do Modesto Neto

O jovem estudante da Escola Educandário Padre Félix, Pedro Henrique Braga, me entrevistou na semana passada para um trabalho de sua escola. As nove perguntas feitas por Pedro, que tem somente 13 anos, mostra o seu interesse por assuntos considerados de “gente grande” e levanta questões fundamentais da política. Segue abaixo.

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Pedro Henrique Braga entrevistou na manhã desta quinta (26) o historiador, cientista social, escritor e militante político, Modesto Neto. As nove perguntas formuladas por Pedro Henrique trataram sobre a vivência do entrevistado no mundo da literatura, suas primeiras leituras, suas publicações e seus autores favoritos. O entrevistador também falou de política, ideologia e expressou suas impressões do atual cenário político nacional.

Modesto Cornélio Batista Neto, 26 anos, é historiador formado pela UERN onde foi membro do Conselho Superior Universitário (o CONSUNI), então presidido pelo Reitor Milton Marques de Medeiros, durante dois mandatos: 2011 e 2012. Modesto Neto também é cientista social e mestrando em Ciências Sociais (com ênfase em Ciência Política) pela UFRN.  Em 2007 publicou uma coletânea de poesias intitulada “Faces de um mesmo ser”, em 2009 uma nova coletânea foi publicada com o título “Escritos do Silêncio”. No ano de 2012 publicou pelo Clube de Escritores sua coletânea de crônicas: “Libertário”, com textos inéditos e outros que já haviam sido públicos em jornais. Sua pesquisa monográfica “O submundo da prostituição potiguar entre 1960 e 1970: relações de poder e histórias de vida” que tratava da história de vida de prostitutas entre as décadas de 1060-1970 foi publicada em 2016 pela editora paulista Barata Cichetto.

Em 2013 Modesto Neto e um grupo de militantes de esquerda oriundos do brizolismo se filiaram ao Partido Socialismo e Liberdade (o PSOL) a convite do professor da UFRN, Robério Paulino, que foi o candidato do partido ao Governo do Estado do Rio Grande do Norte na eleição de 2014.  Hoje Modesto Neto é membro do Diretório Estadual do PSOL no RN e dirigente da organização socialista Nova Práxis. Neste pleito de 2016, Modesto Neto é pré-candidato a prefeito de Angicos pelo PSOL.

Pedro Henrique: Como foi seu começo na literatura?

Modesto Neto: Eu comecei escrevendo poesia muito cedo. A professora Fatuca da Escola Estadual Joana Honório foi uma grande incentivadora e em 2007, há quase 10 anos, saiu meu primeiro livro que era de poesias. Em 2009 saiu o segundo, depois publiquei crônicas e minha monografia já por uma editora, foi por ai. Agora tô esperando sair um artigo meu que será publicado num livro de uma turma da universidade federal de Pernambuco, esse meu texto que vai ser publicado fala das manifestações de junho de 2013 quando houve muita mobilização e milhões tomaram as ruas contra o aumento das passagens de ônibus, eu participei desse processo e agora, alguns anos depois, vou publicar um longo artigo sobre esse recente episódio da história brasileira.

Pedro Henrique: Quais suas principais inspirações no mundo da literatura?

Modesto Neto: Minha mãe é professora aposentada de português e é especialista em literatura, então eu comecei a ter contato com o mundo da leitura muito cedo e no começo lia de tudo, gibi da turma da Mônica, sítio do Pica-Pau Amarelo de Lobato até as aventuras de Ivanhoé de Walter Scott que é um importante escritor escocês que inaugurou o estilo do romance histórico no século 19, mas na época, com 13 ou 14 anos, eu não sabia nem que existia a Escócia, eu só lia e gostava. Eu acho que essa coisa da inspiração é muito complicado porque eu sou um leitor eclético, mas digo com clareza que meus poetas favoritos são Fernando Pessoa, Camões, Shakespeare e Castro Alves.

Pedro Henrique: E sobre política. O que te motivou a entrar na política?

Modesto Neto: Na verdade todo mundo já nasce dentro da política, as condições para que uma criança possa vir ao mundo também são políticas porque precisa existir uma política de saúde, uma ética da saúde, um corpo técnico de profissionais que seguem regras e normas sanitárias que garantem que a criança venha com segurança a esse mundo. Então, a política está em toda parte: na escola, na universidade, nos hospitais, nas ruas. Mas, eu decidi militar politicamente porque a nossa cidade e o nosso país, do jeito que estão, não nos satisfaz, não nos representa e não nos serve, então a gente tem que mudar tudo isso e fazer uma coisa nova. Exemplo, a maioria do povo do Brasil gravita entre a pobreza e essa baixa classe média que é composta de trabalhadores que só tem carro e apartamento porque financiou pelo banco pra pagar em prestações a perder de vista, ai a gente olha o congresso e vê um monte de velhos ricos, corruptos e mentirosos, e, como esses ricos e poderosos vão representar os interesses do povo pobre e dos trabalhadores? Não vão. Não vão de jeito nenhum. Então, essa nossa democracia é uma porqueira, precisa de uma reforma profunda que coloque o povo de verdade dirigindo e liderando as coisas. Por isso que eu decidi entrar na política, para dizer diretamente pro povo que a gente precisa tomar as rédeas do nosso destino como povo e nação.

Pedro Henrique: Quais suas ideológicas políticas e suas principais opiniões?

Modesto Neto: Eu procuro ser um marxista, um socialista. O marxismo e o socialismo não é uma coisa que você simplesmente é, é uma prática que você precisa ter. Se um homem bate em sua esposa, discrimina homossexuais, é racista, pensa que as mulheres foram feitas para servi-lo, se ele se sente confortável e feliz enquanto come filé e o seu vizinho não tem o que comer, então ele não é um socialista, por mais que diga que é. Eu tenho algumas opiniões sobre algumas coisas. Exemplo: porque existe fome no mundo? O planeta terra produz alimento suficiente para alimentar duas vezes a população mundial que é mais ou menos 7 bilhões de pessoas. Mas, o alimento não é alimento, ele é mercadoria e se você não tem grana para comprar não precisa sequer entrar no supermercado.  Então, existe fome no mundo porque o alimento é transformado em mercadoria e eu acho que isso está errado porque no momento que o alimento é somente uma mercadoria o próprio direito a vida tá cerceado, as pessoas não sobrevivem sem alimentos. É por isso que eu defendo a reforma agrária e a democratização das terras.

Pedro Henrique: Quais as suas inspirações na política? Cite algumas pessoas que você admira.

Modesto Neto: São muitas. Leon Trotsky, Karl Marx, Walter Benjamin, Ernesto Guevara, Nelson Mandela, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Plinio de Arruda Sampaio, Robério Paulino.

 

Pedro Henrique: Como você vê o atual momento político do Brasil?

Modesto Neto: O momento é de uma gravíssima crise que aponta um horizonte de retrocessos enormes e talvez incalculáveis. A presidente Dilma já fazia uma gestão muito ruim e distante dos reais interesses do povo, mas o afastamento dela colocou a frente do país o Michel Temer que é muito pior, é horrível, é péssimo, é um monstro contra o povo e seus direitos. A gente tem lutado por novas eleições porque o Temer não nos representa. A operação Lava Jato tem suas limitações que são muitas, mas nós estamos assistindo os principais quadros da república metidos até o pescoço com corrupção, muita corrupção. É preciso varrer esses caras da política, esse congresso e esse governo que são um lixo. Infelizmente os retrocessos com Temer são grandes e parece estão avançando: a reforma trabalhista só acaba com o direito dos trabalhadores, reduz o horário do almoço e salários para aumentar o lucro dos empresários. Será preciso uma grande mobilização que barre esses ataques porque só na rua vai ser possível, no parlamento o povo não tem nenhuma confiança.

Pedro Henrique: Quando adolescente você já pensava em seguir essa carreira de militante?

Modesto Neto: Em 2007 eu comecei a militar ainda no ensino médio, eu era redator de um jornalzinho do grêmio estudantil da Escola Estadual Desembargador Florestan Fernandes em Natal. Em 2009 na UERN fui eleito por duas vezes para o DCE como Diretor de Formação Política. Eu não tinha tanta clareza com 17 anos, mas na universidade as coisas ficaram claras e já sabia que aquilo era parte da minha vida. O movimento estudantil foi uma grande escola pra mim.

Pedro Henrique: Como você decidiu entrar no PSOL?

Modesto Neto: O PSOL é o único partido do Brasil que tem deputados federais e não tem sequer um filiado envolvido neste escândalo da Lava Jato. É um partido socialista que mostra que é possível fazer uma nova política sem os velhos métodos da política tradicional. O PSOL é um partido necessário e isso me fez ingressar nele.

Pedro Henrique: Qual sua maior luta?

Modesto Neto: A minha maior luta é a emancipação humana. Mas, para isso, a educação é um instrumento necessário e importantíssimo. Eu diria que a luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade é minha principal bandeira.

Pedro Henrique: Obrigado pela entrevista, Modesto, com certeza deu para conhecer um pouco da sua história. Pode deixar uma frase ou pensamento, fique à vontade.

Modesto Neto: Obrigado Pedro! Espero que tenha atendido as expectativas, Olha, tem uma frase do Victor Hugo que eu acho muito bonita: Utopia hoje, carne e osso amanhã! Mais uma vez, obrigado.

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Por Modesto Neto*

 

Dilma tenta “salvar” a Petrobras, acena para o capital internacional enquanto o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy estima cortes no OGU acima de 60 bilhões de reais. O slogan “Governo Novo, Ideias Novas” já pode ser descartado: cortes sociais e medidas impopulares fazem parte de um velho receituário, liberal.

Que o ano de 2015 seria um ano de crise e muitos enfrentamentos, isso já se previa desde meados de 2014 quando a economia dava sinais de desaceleração e as manifestações populares de junho de 2013 ecoavam um ethos de insatisfação no ar. As eleições decididas no segundo turno mandaram um recado para a presidenta Dilma: o PT não é mais unanimidade. Dilma prevaleceu sob Aécio Neves por apenas 3,4 milhões de votos na eleição mais apertada desde a democratização. O PT que em 2002, 2006 e 2010 com Lula e Dilma obtiveram respectivamente maioria de 19,4 milhões, 20,7 milhões e 12 milhões de votos contra os candidatos tucanos aparentemente perdeu uma parcela significativa da confiança do eleitorado brasileiro.

Para assegurar a confiança de parcelas amplas do eleitorado brasileiro é imperiosamente necessário assegurar que não haja declínio dos postos de trabalho que foram criados com o ciclo econômico crescente dos últimos 16 anos. Neste sentido é preciso que o mercado internacional continue apostando fichas no Brasil e assegurando as condições para financiamento de empreendimentos e novos investimentos.

Apesar do trabalho precarizado e informal ser preponderante na configuração do mundo do trabalho brasileiro não se pode negar o aumento dos postos de trabalho no Brasil. Contudo, o aumento de postos de trabalho neste momento não é uma tendência nem no Brasil, nem no mundo. No relatório da Organização Internacional do trabalho (OIT) intitulado “World of Work Report 2014: Developing with Jobs” divulgado pela ONU, estima-se que neste ano de 2014 tivemos 203 milhões de desempregados no mundo. O aumento das demissões é uma tendência mundial e a Espanha que cravou 26% de taxa de desemprego no último trimestre de 2014 é um exemplo claro desta tendência como Grécia e outros países da Europa.

O Governo da presidenta Dilma tem a difícil missão de equilibrar os limitados ganhos sociais e os reajustes fiscais necessários para o superávit primário e consequentemente os juros da criminosa dívida pública. Para tal tarefa foi escalado o economista liberal Joaquim Levy ao Ministério da Fazenda e sua tarefa é cortar gastos. Antes mesmo da aprovação do Orçamento Geral da União para 2015 o Governo fez por via de Decreto editado em oito de janeiro um corte imediato de 1,9 bilhão (22,7 bilhões de reais anual), embora a realidade seja ainda mais alarmante. Os ministros da Fazenda e Planejamento, Levy e Nelson Barbosa projetam “poupar” 66 bilhões de reais que não isentará o brasileiro de vários aumentos tarifários e tributários que se anunciam. Eis as “medidas impopulares” que Dilma acusara Aécio ainda na arena eleitoral.

Joaquim Levy Mãos de Tesoura: “eu vou sentar e cortar”

Joaquim Levy Mãos de Tesoura: “eu vou sentar e cortar”

Hoje cogitar uma auditória da Dívida Pública e suspensão do pagamento (55 bilhões anuais de amortização), alargamento dos direitos sociais e trabalhistas, suspensão do pagamento de obras superfaturadas e encanamento de empresas privadas que agem em áreas estratégicas do Estado como energia, portos, aeroportos, rodovias, divisas territoriais, petróleo e tecnologia no curso do atual Governo do PT é um sonho do campo da esquerda que sabemos que não se realizará. Na pretérita e dicotômica relação capital e trabalho o PT fez sua escolha e não há dúvidas que a legenda não escolheu a moeda dos trabalhadores. O velho receituário liberal para evitar ou sair da crise em que o Brasil vive é cortar na carne do povo brasileiro, rebaixar direitos e costurar os acordos com o capital e o mercado.

Hoje a principal estatal brasileira derrete no mercado de ações no mesmo ritmo que os escândalos de corrupção tomam conta dos jornais. Petróleo e lama se misturam na gestão da Petrobras e as ações vacilantes da presidenta Dilma não são capazes de brecar a queda e a desvalorização internacional da mais estratégica estatal brasileira. Na posse do novo mandato a presidenta Dilma citou com destaque as relações diplomáticas com EUA pela sua “importância política, econômica e diplomática” e a Arábia Saudita. O aceno obsceno ao capital internacional em torno de um acordo tático afim de que o Brasil não seja rebaixado pelas agências de risco foi dado, mas ainda não respondido. O certo é que neste acordo os cortes nas áreas sociais são inevitáveis e para os trabalhadores não restará outra opção senão apertar os cintos.

As medidas impopulares começaram. Dilma aceno ao capital e aponta que o país evitará uma crise que na verdade já começou com “os menores sacríficos possíveis” aos trabalhadores. A tradução literal não é poética, mas sim material. Se o Ministério da Educação em janeiro teve “contenção” de 33%, imaginemos as outras áreas sociais quando os cortes de mais de R$ 60 bi do Ministro Joaquim Levy alcançar os horizontes sociais e trabalhistas. Uma certeza já se desenha: 2015 será um longo ano marcado pelo recorde de lucros dos bancos. O prato na mesa dos banqueiros será ainda mais fino, mas a conta vai para a mesa dos trabalhadores. O garçom e a garçonete atendem por senhor Levy e dona Dilma.

(*) Modesto Neto é historiador, mestrando em Ciências Sociais (UFRN) e dirigente do PSOL.

mulher negra

A taxa de analfabetismo caiu de forma mais acelerada entre as mulheres pretas e pardas entre 2000 e 2010, divulgou hoje (31) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar disso, o indicador para ambas ainda é mais do que duas vezes maior do que o entre as mulheres brancas, registra a pesquisa Estatísticas de Gênero, que utiliza dados do Censo.

No ano 2000, 12,9% das mulheres brasileiras com mais de 15 anos não sabiam ler nem escrever. O percentual caiu para 9,1% em 2010, aumentando a vantagem que já era observada em relação aos homens, que tiveram redução de 13% para 9,8%. Entre as mulheres brancas, a taxa diminuiu de 8,6% para 5,8%.

Quando analisadas as mulheres pretas, a queda se deu de forma mais intensa, de 22,2% para 14%, mas o patamar ainda permanece 8,2 pontos percentuais acima das brancas. As mulheres pardas também tiveram uma redução mais expressiva que as brancas, de 17,9% para 12,1%.

Com a queda, a taxa de analfabetismo entre as mulheres pretas passou a ser menor que a dos homens que se declararam da mesma cor (de 20,9% para 14,2%). O analfabetismo entre os homens pardos também foi menor em 2010, com redução de 18,5% para 13,2%.

O IBGE destaca que os avanços na alfabetização das mulheres inverteram uma desvantagem histórica, que ainda aparece na taxa de analfabetismo de pessoas com mais de 60 anos, em 24,9% entre os homens e 27,4% entre as mulheres. Para as mulheres pretas nessa faixa etária, o analfabetismo ainda chega a 42,2% da população, contra 39,2% dos homens.

Na população de 15 a 29 anos, as mulheres registram taxa quase duas vezes menor que a dos homens, com 1,9%, contra 3,6% deles. A vantagem feminina se mantêm na faixa etária de 30 a 59 anos, que incide sobre elas com 8,5% e sobre eles com 10,3%.

A região Nordeste, apesar da queda mais acentuada, ainda é a que mais sofre com o analfabetismo entre as mulheres, com taxa de 16,9%, seguida pela Norte, com 10,3%. Sul, Sudeste e Centro-Oeste registram valores bem inferiores, de 5,4%, 5,7% e 6,9%, respectivamente.

Safatle

Safatle

Por Vladimir Safatle*

 

Fechadas as urnas e proclamado o resultado das últimas eleições, as primeiras palavras foram em direção à reconstrução da união nacional. Afinal, esta eleição teria levado o país a um ponto perigoso no qual parecem aflorar inimizades, preconceitos e outras coisas que gostaríamos de acreditar ultrapassadas. Vamos então esquecer um pouco tudo isso, voltar à vida normal, reintegrar os expulsos do Facebook. Mas, e se isso não for mais possível?

Desde as manifestações de 2013 o discurso da união nacional havia entrado em colapso. Quando massas foram às ruas, descobrimos que alguns gritavam pelo fim da PM enquanto outros queriam a expulsão de médicos cubanos do país. Daí as leituras díspares sobre o sentido ideológico daquela explosão de descontentamento: de classe média golpista nas ruas à situação pré-revolucionária. No entanto, talvez lá havíamos simplesmente descoberto que não haveria mais união, nem mesmo o silêncio complacente de sempre. Placas tectônicas se moveram.

O Brasil que conhecemos até agora acabou. Os amigos perdidos talvez não voltem mais. Por isso, arriscaria dizer que o maior saldo dessas eleições foi mostrar que não somos algo parecido a um povo dotado de identidade coletiva. Não há nada, absolutamente nada que me una a pessoas que tomam a avenida Faria Lima para gritar: “Viva a PM”. Apenas ocupamos o mesmo espaço e tentamos politizar nosso desencontro absoluto, mas não fazemos parte de identidade coletiva alguma. Por isso, nosso encontro político sempre será violento.

Esta divisão não é apenas expressão de um conflito de classe. Desde que Lula ganhou sua primeira eleição, o PSDB tem, em média, 40% dos votos, chegando agora a 48%. Não há 40% de classe média no Brasil. A classe média e a classe pobre sempre estiveram ideologicamente divididas, com algo como um terço de seus eleitores oscilando entre dois polos.

Creio que é importante dizer isso porque as reconciliações nacionais na história brasileira foram sempre reconciliações extorquidas, na qual os mais vulneráveis são obrigados a engolir discursos conciliatórios enquanto as desigualdades e os comportamentos medievais de certas parcelas da população continuam a circular sem culpa. Não há razão alguma para continuar esta compulsão de repetição.

Seria bom para o país que os atores políticos estivessem à altura deste novo cenário.

(*) Safatle é filosofo e professor livre-docente da USP, colunista da Folha de S. Paulo

Por Modesto Neto (*)

Com as urnas computadas e o resultado que se chegou com as eleições de 2014 no Rio Grande do Norte, alguns ensinamentos devem ser tirados do processo eleitoral e a possibilidade de um novo horizonte de lutas se abrirem não está descartada. Algumas constatações são claras. As pesquisas mentem. Acordos e acordões não são suficientes para vencer uma eleição e Henrique Alves do PMDB provou essa tese. O verniz popular e a militância do PT foram basilares para vitória de Robinson Faria do PSD no segundo turno. Robério Paulino e o PSOL se firmam como terceira via e se tornam alternativa política de esquerda para o RN.

A primeira constatação que se pode ter é que as pesquisas eleitorais não traduzem a realidade. Se alguém tinha dúvidas sobre o papel das pesquisas eleitorais, não as tenha mais. Os institutos que se multiplicaram em anos eleitorais apresentam dados que tem duas funções: uma externa e outra interna. Para fora dos partidos as pesquisas visam intencionar e tencionar o eleitor, dentro das coligações que disputam à corrida majoritária a pesquisa serve como panaceia para manter estimulada a militância – mesmo que paga – e cooptar prefeitos, vereadores e lideranças com a impressão de uma vitória e consequentemente as benesses do poder, noutras palavras, cargos e recursos da burocracia estatal.

Robério Paulino tem votação expressiva

Robério Paulino tem votação expressiva

Todos os institutos de pesquisa que registraram e divulgaram pesquisas eleitorais no Rio Grande do Norte apontaram uma votação inexpressiva do candidato do PSOL, professor Robério Paulino, previa-se algo que variava entre 1% a 3%. Economista por formação e professor da UFRN no Departamento de Políticas Públicas (GPP) Paulino questionou as pesquisas eleitorais e deu inúmeras declarações – em rádios, tevês, jornais e debates – atestando o falso caráter das pesquisas. O resultado das urnas no primeiro turno desmoralizou os institutos de pesquisas, até mesmo o famigerado e alardeado IBOPE que apontou 4% do candidato do PSOL no último levantamento e acabou errando feio. Robério Paulino fez uma campanha com R$ 30 mil (claramente insuficiente para uma campanha ao Governo do Estado) sem se render a lógica do financiamento empresarial e amealhou quase 9% dos votos no Rio Grande do Norte (quase 130 mil votos), somando quase 23% na capital, Natal. Sublinhar que foram gastos mais de R$ 700 mil em contratação de institutos somente no primeiro turno revela ainda o quanto às campanhas políticas vale-se de altos gastos oriundos de relações umbilicais entre políticos e empresários.

Pesquisa IBOPE erra e eleição no RN tem segundo turno

Pesquisa IBOPE erra e eleição no RN tem segundo turno

As pesquisas atestavam vitória do deputado Henrique Alves do PMDB para o Governo do Estado já no primeiro turno, o que não se confirmou. A coligação “União pela Mudança”, formada por 18 legendas — totalizando aproximadamente 120 prefeitos e 900 vereadores – espalhados pelos municípios do Rio Grande do Norte conseguiu que o candidato do PMDB terminasse o primeiro turno como primeiro colocado. Henrique obteve 47%, Robinson Faria do PSD somou 43%, enquanto que Arakem Fárias do PSL e Simone Dutra do PSTU juntos não chegaram aos 2%. O que foi decisivo para que a disputa pelo Governo do Estado fosse para o segundo turno foi a considerável votação de Robério Paulino, seus exatos 8,74%.

Sobre as campanhas é preciso apresentar o que foi defendido por cada candidato no primeiro turno para entender o resultado das urnas e a densidade popular de cada projeto, levando em consideração as limitações de cada estrutura partidária e subsequentemente financeira e eleitoral.

Robério Paulino cumpriu um papel central ao apresentar um contraponto às candidaturas dos candidatos tradicionais nos debates e sua votação foi expressiva o suficiente para encaminhar a disputa pelo Governo do Estado para o segundo turno. Sua campanha foi tocada pela juventude universitária e encarnou o ethos das jornadas de junho de 2013 reivindicando a participação popular como alternativa política, negando inclusive, o processo eleitoral como um fim em si mesmo, apontando as insuficiências do atual modelo político. Henrique Alves levantou a tese de que apenas a “união de forças políticas” seria capaz de tirar o Estado do atoleiro e com uma postura paternalista se auto intitulou o “salvador” do RN pelo prestigio que havia acumulado como deputado federal, líder do PMDB e Presidente da Câmara Federal. Robinson Faria teve na então candidata e hoje senadora eleita, Fátima Bezerra do PT, um verniz popular onde ele colou sua imagem e se apresentou para enfrentar o “acordão”. Simone Dutra do PSTU fez uma campanha classista, expos as contradições da velha política, mas não conseguiu estabelecer um maior dialogo com a população. Arakem Farias enfrentou problemas internos no seu pequeno PSL, angariou votos entre setores evangélicos e não se diferenciou nos debates.

Henrique e Robinson foram para o segundo turno e o candidato do PMDB é derrotado

Henrique e Robinson foram para o segundo turno e o candidato do PMDB é derrotado

No segundo turno Robinson Faria bateu Henrique Alves por 142 mil (quase 10%) votos de diferença numa campanha que somou alta abstenção. Robinson teve 54% contra 45% de Henrique Alves. O PSD como a maioria dos partidos patronais não tem militância, mas um conglomerado de pessoas lotadas em gabinetes amigos que se articulam e fazem campanha para o candidato do partido. Neste sentido a militância do PT foi responsável por tocar a campanha de Robinson e dar ao vice-governador do Governo Rosalba Ciarlini do DEM um tom mais popular. O ex-presidente Luiz Inácio chegou a gravar mensagem de apoio para Robinson Faria, o então “candidato de Lula”. Henrique Alves só venceu no quesito rejeição, chegando a somar 47% na última pesquisa do IBOPE e a atmosfera do “acordão” não soou bem aos ouvidos dos eleitores potiguares.

voto nuloAinda sobre o segundo turno o que temos de certo é que uma quantidade considerável de potiguares não se viu representada em nem dos dois projetos apresentados. 17,6% do eleitorado potiguar não viu motivo para sair de casa para votar, enquanto que 15% preferiram ficar entre o voto branco e o nulo. Na Região Central (nas cidades de Afonso Bezerra, Santana do Matos,  Angicos, Lajes, Pedro Avelino, Fernando Pedroza, Pedra Preta e Caiçara do Rio dos Ventos) a média de abstenção chegou aos 22,8% com destaque para a cidade de Pedro Avelino onde 28% das pessoas deram de ombros para os dois candidatos. No Seridó registrou-se 23,2% de abstenções com destaque para Cerro-Corá 27% e Currais Novos 25,9% de abstenções. O cansaço e desdém com o atual modelo político é um fenômeno evidente e inconteste, prova cabal que a democracia burguesa e pseudo representativa vivem uma crise que não é apenas no Rio Grande do Norte ou no Brasil, mas no mundo ocidental. Democracia direta é a cada dia desejo de um maior número de povos e é fruto de reivindicações.

No Rio Grande do Norte o Governo Robinson Faria tem o dia 1º de janeiro de 2015 para começar e com uma bancada minúscula de seis deputados estaduais na AL-RN, é fácil prever que uma maioria fisiológica se formara muito rapidamente. Se o poder tem cheiro de queijo, os deputados estaduais tem o apetite de ratos e logo disputaram entre tapas e mordidas um pedacinho do Estado. Robinson não pode ser entendido como novidade, é uma expressão da velha política, menos venal que Henrique Alves que pode ser sintetizado como a figura que representa o que existe de pior na política brasileira.

Henrique Alves poderá ser ministro do Governo Dilma Rousseff, ou assumir algum posto de comando em uma autarquia ou estatal. Quarenta e quatro anos como deputado federal causou as costas de Henrique a dependência de uma boa poltrona e na sua mão a necessidade biológica de uma caneta com tina – e poder.

A partir de 2015 Henrique vai procurar um “emprego”, Robério Paulino já voltou para a sala de aula na UFRN (seu habitat natural) e se tornou uma opção real para a Prefeitura Municipal de Natal em 2016, Robinson Faria como governador terá duas oposições: uma na Assembleia que pode ser contida com queijo e cargos e outra nas ruas, cujo receituário tem sido spray de pimenta, cassetete e balas de borracha. Espera-se do governador, no mínimo dialogo, mas sabe-se que as manifestações populares não cessaram, nem hoje, nem amanhã.

(*) Modesto Neto é historiador e dirigente do PSOL – Angicos/RN – Correio Popular.

Modesto Neto e Clemenceau Alves: conflitos políticos resultaram em processos e antagonismo

Modesto Neto e Clemenceau Alves: conflitos políticos resultaram em processos e antagonismo

Na tarde da terça-feira (21) o juiz Dr. Ederson Solano responsável pela comarca de Angicos julgou improcedente o processo judicial movido pelo ex-prefeito Clemenceau Alves (PMDB) contra Modesto Neto e Francisco Monteiro por danos morais.

O imbróglio jurídico ocorreu ao termino do processo eleitoral de 2012 quando o ex-prefeito do PMDB que havia sido derrotado na eleição alegou que Modesto Neto e Francisco Monteiro haviam atentado contra sua dignidade por publicação (texto) de “matérias duvidosas” e “ofensas públicas” no site de relacionamentos Facebook, caracterizando calunia, injuria e difamação segundo a petição do requerente Clemenceau Alves.

O juiz Ederson Solano Batista de Morais julgou improcedente o pedido de Clemenceau tendo em vista que ambos – Modesto e Francisco Monteiro – teriam apenas externado opinião e críticas ao então candidato – fazendo menção a Lei de Ficha Limpa.

Processos Anteriores

Modesto Neto e Francisco Monteiro

Modesto Neto e Francisco Monteiro

Modesto Neto e Francisco Monteiro tinha acionado o Ministério Público em 2012 e denunciado publicamente propaganda extemporânea cometida pelo ex-prefeito Clemenceau Alves na Rádio Comunitária Cabugi Central FM 104,9. O então candidato do PMDB a Prefeitura Municipal de Angicos foi condenado na instância local e após recorrer foi julgado culpado pelo pleno do TRE-RN, sendo condenado a pagar R$ 10 mil em multa.

Poucos meses depois houve o contragolpe. Na petição onde Clemenceau Alves denunciou os dois jovens (então dirigentes do PDT local) por danos morais era requerido indenização de R$ 13 mil de cada um. O juiz entendeu que o pedido era improcedente.

FONTE: Correio Popular – http://www.correiopop.wordpress.com

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Josias de Souza – Folha de S. Paulo

O PT alcançou em São Paulo algo muito difícil de ser obtido em política: uma hegemonia de fracassos. Passou um vexame histórico na disputa pelo cargo de governador, perdeu a única poltrona de senador que estava em jogo e micou em 14 cadeiras de deputado —oito estaduais e seis federais.

Como se fosse pouco, o PT tomou uma coça na briga presidencial: derrotado em Minas Gerais, o mineiro Aécio Neves obteve em São Paulo quase o dobro dos votos amealhados por Dilma Rousseff—10,15 milhões (44,22%) contra 5,92 milhões (25,82%).

Em reunião prevista para esta quinta-feira (9), dirigentes do PT devem fazer um inventário do estrago. Diz-se que Lula dará as caras. Prevê-se que passará uma carraspana na companheirada. Cobrará sangue, suor, trabalho duro nas ruas e lágrimas para o segundo turno presidencial.

Antes de seguir para o encontro com os correligionários, Lula deveria fazer uma introspecção diante do espelho. Talvez enxergue o reflexo de um culpado. Levando a experiência a sério, perceberá que a pose de eletricista não lhe cai bem. Seu papel é o de presidente do apagão eleitoral.

Lula atravessou no caminho dos nomões do PT paulista o ‘poste’ Alexandre Padilha. Não conseguiu eletrificá-lo. E, na véspera da eleição, passou a conta adiante: “O partido precisa voltar a ocupar as ruas desse país como sempre fizemos. O lugar do PT não é no gabinete, é na rua, conversando com o povo…”

O morubixaba do PT bem sabe: há pouco petista sacudindo bandeira voluntariamente na rua porque aquela velha centelha do olhar dos militantes agora brilha nas ‘boquinhas’, não nas ruas —só no plano federal, há mais de 20 mil dessas ‘boquinhas’. Isso sem mencionar os ‘petrobocões’.

Em maio passado, ao discursar no 14ºEncontro Nacional do PT, Lula como que desafiou o partido: “Junto com a eleição da Dilma, nós temos que fazer um processo de recuperação da imagem do PT, mas, sobretudo, precisamos fazer uma campanha para construir uma nova utopia na cabeça de milhões e milhões de jovens brasileiros”.

A certa altura, Lula estabeleceu uma comparação entre o PT que ele fundou em 10 de fevereiro de 1980, e a legenda que ocupa a Presidência da República há 12 anos:

“Nós criamos um partido político foi para ser diferente de tudo o que existia. Esse partido não nasceu para fazer tudo o que os outros fazem. Esse partido nasceu para provar que é possível fazer política de forma mais digna, fazer política com ‘P’ maiúsculo.”

Lula prosseguiu: “Nós precisamos voltar a recuperar o orgulho que foi a razão da existência desse partido em momentos muito difíceis, porque a gente às vezes não tinha panfleto para divulgar uma campanha. Hoje, parece que o dinheiro resolve tudo. Os candidatos a deputado não têm mais cabo eleitoral gratuito. É tudo uma máquina de fazer dinheiro, que está fazendo o partido ser um partido convencional.”

Bingo! Partido rico contrata militantes assalariados. Mas seus dirigentes podem acabar na penitenciária da Papuda, suas arcas um dia acabam secando e seus candidatos, conforme acaba de sinalizar o eleitor paulista, acabam sem votos.

No discurso de cinco meses atrás, Lula dedicou-se a confundir a plateia. Poucos parágrafos depois de ter reduzido o petismo a “uma máquina de fazer dinheiro” ele saiu em defesa da Petrobras:

“Não é possível aceitar gratuitamente a tentativa da elite brasileira de destruir a imagem da empresa que durante tantos anos é motivo de orgulho para o nosso povo”, disse. Hoje, as eleições gerais, inclusive a presidencial, ocorrem sobre um barril sigiloso de óleo queimado. Só vai explodir na cara do eleitor que, desavisado, tiver o azar de entregar o voto a futuros réus.

O Lula de maio também considerou inaceitável a “perseguição” que a mídia golpista faz ao PT. “Há um processo em andamento que chega a ser uma perseguição ao nosso partido”, disse ele. “Parece que é uma coisa pessoal contra o José Dirceu, contra o José Genoino, contra o João Paulo, contra o Delúbio ou contra qualquer companheiro.”

Considerando-se a (i)lógica do discurso de Lula, o PT tornou-se um fiasco em São Paulo porque perdeu a vergonha e o nexo. Ao empurrar Alexandre Padilha para a terceira colocação numa eleição vencida por um Geraldo Alckmin às voltas com um cartel de metrô e com uma crise hídrica, a plateia alerta: se não acordar, o PT será desligado da tomada e submetido a um racionamento de votos.

Aécio prevaleceu sobre Dilma em 88% municípios de São Paulo. Entre eles Santo André, São Caetano do Sul e São Bernardo do Campo, três joias do ABC paulista, berço político de Lula, do PT e da CUT. Lula ainda não se deu conta. Mas, sob o breu das urnas de 2014, seu Palácio de Inverno começou a ser invadido.